O preconceito contra os Alcoólicos Anônimos.

Noto que as pessoas, de um modo geral, já ouviram falar dos Alcoólicos Anônimos mas não sabem exatamente de que se trata. Muitas vezes têm uma visão negativa e preconceituosa, considerando-os, sei lá, uma sociedade secreta de moralistas místicos, uma espécie de seita religiosa contra tudo que for prazer na vida, enfim algo meio para o repressivo, o deprimente e o lúgubre. Confesso que eu próprio tinha uma visão desse tipo. O tal do “não vi nem gostei”.
As classes mais intelectualizadas, essas então, nutrem um franco preconceito. Consideram os Alcoólicos Anônimos de baixo nível, talvez dirigidos por militares místicos, aposentados, de extrema direita, cheios de crenças obscurantistas, que acham uma imoralidade até a missa não ser mais rezada em latim. Ou então os Alcoólicos Anônimos seriam uma sociedade secreta que se reúne em sombrios subsolos onde seus membros entoam canções de gosto duvidoso e estão sempre dispostos a enxergar Satanás ou pecado em tudo que for alegria, prazer ou festa. Uma espécie de Ku-Klux-Klan antialcoólica. Numa visão menos fantástica, os Alcoólicos Anônimos não passariam de uma deprimente instituição de caridade, onde mendigos de pés inchados seriam obrigados a recitar chavões religiosos em troca de um prato de sopa.

O ANONIMATO DOS GRUPOS ANÔNIMOS GERA PRECONCEITOS
Muita gente se arrepia só de escutar essa palavra: anônimos. E o pior é que ela é a única palavra presente no nome de todos esses tipos de grupos. Não tenho dúvidas ser esta uma das maiores fontes de preconceitos contra grupos … Anônimos.
As razões são fáceis de entender.
Logo de saída, anonimato evoca fracasso, o avesso do sucesso e da fama. Não foi à toa que algum piadista logo tratou de dizer que “é melhor ser bêbado célebre do que um alcoólico anônimo”. Celebridade é luz, brilho; anonimato é obscuridade, inexistência, é ser aquele por quem ninguém se interessa.
Daí a habitual associação desses grupos anônimos com sociedades secretas, com seitas de encapuzados. Seus membros seriam “cruzados” de uma Guerra Santa contra tudo quanto for luz, sucesso e fama, ou cultores masoquistas de uma humildade despropositada.
A partir dessa idéia, batalhões de moças e rapazes que frequentam os grandes shows de rock e brigadas de profissionais liberais e de lideranças artísticas e intelectuais ditas modernas se insurgem; enfim, as chamadas vanguardas culturais destilam prevenções e preconceitos por todas as ventas.
“Alguma coisa contra o álcool – símbolo da festa, contra a cocaína – dos prazeres com gosto (ou será cheiro?) de pecado, contra a maconha – da música cristalina e do sexo longo e desapressado; e ainda por cima, alguma coisa sombria, escondida e obscura, é demais! Prefiro morrer bêbado e drogado”.
Não bastasse isso, o anonimato desperta ainda a sensação de doença, de alguém portador de algo vergonhoso. “Vergonhoso para quem?”, pergunta o roqueiro da motocicleta nas ruas de Recife ou Salvador, a moça do cursinho de vestibular da grande São Paulo, o bancário que frequenta a noite em Belo Horizonte ou Curitiba, o universitário da Baixada Fluminense para quem está do lado do gozo, do prazer, da festa, ou para quem está do lado da moderação, da sensatez e da prudência? O que será ser jovem, liberado, de vanguarda?”
Essas questões são um verdadeiro paiol de dinamite. Fazem explodir toda sorte de prevenções. Estou convencido de que nelas se situa a principal causa dos preconceitos contra os grupos anônimos. Vamos ter que esclarecer os fatos.

Dr. Eduardo Mascarenhas
Psicanalista




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